Lido por uma voz IA
Ele tinha tudo previsto.
O seguro de vida, assinado. A herança, resolvida no cartório — os filhos não teriam nada a disputar. A senha do cofre, transmitida. Até o seu funeral: tinha escolhido a música, o texto, e recusado as flores em favor de um donativo. Diziam dele que era previdente. Era verdade. A vida inteira, tinha antecipado. Os mercados, os riscos, os golpes duros. Dormia tranquilo porque sempre tinha um plano.
E ei-lo neste quarto, ligado a máquinas que contam por ele as batidas que lhe restam.
Por volta das duas da manhã, uma auxiliar de enfermagem entra sem ruído. Vem trocar uma bolsa, verificar um soro. É jovem, cansada, dessas que não se notam, a quem se agradece com um aceno sem reter o nome. Faz o seu trabalho em silêncio. Depois, ao dobrar o lençol, pergunta-lhe — sem malícia, apenas porque a noite às vezes solta a língua:
— E para depois, senhor? O que é que previu?
Ele julga compreender. Sorri fracamente. Está tudo resolvido, menina. O cartório, os filhos, até a cerimônia.
Ela acena com a cabeça. Arruma. E no momento de sair, vira-se e esclarece com doçura:
— Não. Eu queria dizer: para o senhor. Para o que o espera, ao senhor. Do outro lado.
E então, pela primeira vez em anos, o homem que tinha tudo previsto não tem nada a responder.
Nada de nada.
Meu amigo, minha irmã, guarda esta cena por um instante.
Não é a história de um outro. É a história de uma vida cheia, organizada, séria — uma vida como a tua, talvez, como a minha. Sabemos antecipar tudo, exceto o que mais importa. Aconchegamos o futuro dos nossos entes queridos e deixamos o nosso na incerteza.
Jesus conheceu um homem assim. Um homem que tinha dito a si mesmo: descansa, come, alegra-te, tens bens para muitos anos. E a resposta caiu, sem crueldade, como um despertar:
«Louco, esta noite te pedirão a tua alma.»
Lucas 12:20
A sabedoria deste mundo sabe encher um cofre. Não sabe encher uma eternidade.
A auxiliar foi-se embora. Não acrescentou nada. Mas a sua pergunta ficou no quarto — e fica neste texto, porque não era só para ele. É para ti. Então deixa-me retomá-la, com doçura, ali onde ela parou.
Tu também partirás um dia para uma viagem da qual não se volta. Não é mórbido dizê-lo: é honesto. E quando tudo o resto estiver resolvido, uma só pergunta permanecerá: o que preparaste para esta grande passagem? Estás pronto para te encontrares com o teu Deus? Conheces Jesus, o teu Salvador?
Muito antes daquela noite, um profeta o dissera a um povo adormecido:
«Prepara-te para te encontrares com o teu Deus.»
Amós 4:12
Não como uma ameaça erguida. Como uma mão estendida — antes que sejam duas da manhã.
Porque preparar esta passagem não é amontoar méritos como se amontoam colheitas. É mais simples, e mais belo: é pôr desde já a sua mão na dele. Deixar Cristo entrar no quarto muito antes da urgência. Viver já voltado para Aquele que nos espera do outro lado — para que a travessia não seja um salto no escuro, mas um regresso a casa.
O homem da história julgava ter tempo. Tu — tu tens o hoje. É exatamente o que precisas.
E para ti — para o que te espera, a ti — previste alguma coisa?
Não é para te condenar. É para te convidar.