Você conhece o alfabeto. Vinte e seis letras, ordenadas caprichosamente do A ao Z. Sinais neutros, sem história. Você os usa todos os dias sem pensar — e isso é normal, esse é o papel deles. Eles se apagam atrás das palavras.
Exceto talvez uma letra.
Y.
Em francês, esta letra se chama i grec — «i grego». Há uma razão para esse nome estranho. Quando os romanos adotaram o alfabeto grego, já tinham um I em sua língua. Então esse recém-chegado recebeu um nome de estrangeiro: i graecus, o I que vem de outro lugar.
Mas de onde vem esse iota grego? Do yod hebraico.
Aquele pequeno Y no seu teclado é o trineto de uma letra bíblica. Ainda carrega, sem saber, a marca de suas origens. Algumas coisas atravessam os séculos sem que ninguém note.
O alfabeto hebraico tem apenas vinte e duas letras. Mas aqui, cada letra tem um nome. E cada nome tem um significado.
A primeira, Alef — significa boi. Vire-a de cabeça para baixo: é uma cabeça de boi estilizada. E nossa palavra «alfabeto»? Vem de alef-bet — boi-casa. Repetimos esta palavra milhares de vezes numa vida sem saber que estamos dizendo algo.
A segunda, Bet — significa casa. Você a reconhece em nomes que lê nos Evangelhos: Belém, a casa do pão. Betsaida, a casa do pescador. Betânia, a casa da aflição. Esses nomes não são decorativos. Dizem algo sobre o que acontece ali, sobre o que Deus faz ali.
A língua bíblica não é neutra. Ela é habitada.
E então há esta letra que quero lhe mostrar por último.
Yod.
י
Um pequeno traço vertical. Quase um ponto suspenso no ar. A menor letra de todo o alfabeto hebraico.
E você sabe como os escribas hebreus traçavam essas letras? Antes de pousar o cálamo sobre o pergaminho, eles paravam. Fechavam os olhos. Respiravam fundo — como para absorver o sopro de Deus antes de traçar o menor sinal.
Cada letra era um ato sagrado. Não uma técnica. Um ato de presença.
A ideia de que escrever podia ser uma oração. Que o gesto precede a letra. Que nada na Palavra de Deus é mecânico.
Imagine esse escriba, no silêncio, respirando lentamente… depois traçando aquele pequeno traço vertical. O yod. Com todo o cuidado do mundo.
E no entanto — este sinal, tão pequeno, está presente em quase cada palavra da língua. Tomemos um exemplo simples: a palavra hebraica yad, que significa mão. Começa com um yod. Retire aquele pequeno traço — e a mão desaparece. A palavra desmorona.
O que parecia insignificante sustentava tudo.
E você sabe o que significa o yod em si mesmo? Mão.
A mão que sustenta a palavra «mão». Retire-a, e não sobra nada que sustente.
«Pois eu lhes digo verdadeiramente que, enquanto existirem o céu e a terra, de forma alguma desaparecerá da Lei um iota ou um til, até que tudo se cumpra.»
Mateus 5:18 (NVI)
Em outras palavras, Jesus está dizendo: a Palavra de Deus não perderá nem um de seus traços. Nem o menor. Nem o que ninguém nota. Nem o yod.
Poderia ter falado de grandes coisas. Fala de um pequeno traço de pena. E diz: este também permanecerá.
Penso em você agora. Você que lê estas linhas, talvez numa tarde ordinária. Talvez cansado. Talvez com a sensação de ser pequeno — pequeno demais para realmente contar, silencioso demais para ser notado, frágil demais para fazer uma diferença.
Penso em sua oração murmurada ao amanhecer, que ninguém ouviu. Naquele gesto gentil que você fez em silêncio, sem testemunhas. Nessa fidelidade tranquila, ano após ano, na sombra.
Você é um yod.
E o yod — aquele pequeno traço que ninguém nota, presente em quase cada palavra — é o que sustenta tudo.
O pequeno não é o que carece de importância. O invisível não é o que está ausente.
E você — você que às vezes se acha insignificante — conta. Traço por traço. Sopro por sopro. Deus sabe. Sempre soube.
O seu Y, esta noite, é sua testemunha silenciosa.