Pedro escreve esta carta por volta do ano 63, provavelmente de Roma. Ele a envia a cristãos dispersos por cinco províncias distantes da Ásia Menor — a Turquia atual. Pessoas longe de tudo, isoladas, às vezes perseguidas. Essas pessoas nunca viram Jesus. Não caminharam com ele pelas estradas da Galileia. Não ouviram sua voz à beira do lago.
E no entanto Pedro — o que viu tudo, o que tocou Jesus, o que comeu peixe assado com o Ressuscitado à beira do lago — Pedro lhes escreve com infinita ternura: «Vocês o amam.»
Não «vocês o respeitam». Não apenas «vocês creem nele». Vocês o amam.
Como é possível? Amar alguém que você nunca viu?
Imagine uma jovem. Seu noivo foi embora para longe — do outro lado do mundo. Foi há muito tempo, antes dos telefones, antes da internet. A única coisa que ela tem dele é uma carta. Só uma. Mas ela a leu cem vezes. Sabe de cor cada frase. Reconhece a caligrafia dele, o ritmo, seus modos de expressão. Sabe onde, na margem, ele sublinhou uma palavra em particular.
Quando abre a gaveta onde a guarda, não está lendo um texto. Ela ouve uma voz. Vê um rosto. Sente uma presença.
Ela sabe. Não está sozinha.
Isso são os Evangelhos.
Não um manual de teologia. Não um livro de história antiga. Uma carta. A carta daquele que nos ama, que quis que soubéssemos, geração após geração, quem ele é, como fala, como olha, como ama.
Quando você lê João 14 devagar, não está estudando um texto. Está ouvindo uma voz:
«Não se perturbem os corações de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim.»
João 14:1 (NVI)
Esta frase não tem vinte séculos. Tem a idade da sua manhã. É dita a você, antes de ir ao trabalho, antes desse exame médico que você teme, antes desse dia que o assusta. Com a condição de abrir a gaveta.
Quando era bombeiro, vi frequentemente famílias nos corredores do hospital. Um paciente em terapia intensiva. A família sentada do lado de fora, no silêncio da noite. E na tela, atrás da porta, um monitor cardíaco. Aquela linha verde que sobe e desce.
A família não vê o coração do paciente. Só vê o traçado. Mas esse traçado lhes diz algo essencial: ele está vivo. Bate. Respira. Está aí.
Esse amor por Jesus, você não o fabricou. Você não se disse uma manhã: «Bem, vou amar este personagem histórico.» Não. Algo aconteceu. Alguém veio. Uma presença se tornou tangível no invisível. Uma paz que desce sem razão depois de uma oração. Uma força que você não sabia que tinha. Uma palavra que sai da sua boca num momento difícil, e que não é sua.
«O amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.»
Romanos 5:5 (NVI)
É obra do Espírito. Ele torna Cristo real em nossos corações. É esse monitor silencioso que nos diz, na noite do corredor: Ele está aí. Vive. Bate.
Pedro não diz: «Vocês nunca o verão.»
Diz: «Vocês creem nele sem o ver ainda.»
Ainda não.
Um dia — e esse dia se aproxima — nós o veremos. Face a face. Sem bronze embaçado. Sem reflexo amarelado. Sem contornos borrados. Luz direta. Olhos com olhos.
«Sem o terem visto, vocês o amam; embora agora não o vejam, nele creem e se alegram com uma alegria indescritível e gloriosa.»
1 Pedro 1:8 (NVI)
Depois de todos esses anos buscando-o na oração, confiando nele através das tempestades, amando-o sem vê-lo… vê-lo afinal. Não como uma ideia, mas como uma Pessoa. Não pela fé, mas com os nossos próprios olhos.
Não será o encontro com um estranho. Será um reencontro.
Mas entre hoje e esse dia, há uma semana. Há uma segunda-feira que começa amanhã. E é nessa semana — não em alguma eternidade distante — onde aprendemos a amá-lo.