Carrego esta pergunta há muito tempo sem me atrever a formulá-la. Hoje a escrevo para aqueles que ainda a carregam.
Não tive um pai notável. Na verdade, nunca tive um. Nunca chamei ninguém de pai. O homem que vivia em casa — no meio de uma família de cinco filhos — era violento. Batia na minha mãe. Arranjava um jeito de fazê-lo quando eu estava na escola. Quando chegava em casa, às vezes encontrava cabelos arrancados no chão, um rastro de sangue esquecido na borda da pia. Alguns dias depois, apareciam hematomas no rosto e nos braços dela, que ela tentava disfarçar.
Era pequeno demais para saber o que aquilo significava. Mas observava. Registrava sem realmente entender. No silêncio e na ignorância de uma criança de nove ou dez anos.
Era essa a imagem que eu tinha de "pai".
Então, quando me falavam de Deus Pai — amoroso, próximo, fiel, acima de todas as coisas — algo em mim resistia sem que eu pudesse explicar. Não era incredulidade. Era uma ferida. A imagem havia sido manchada antes mesmo de eu poder olhá-la de frente.
Não falávamos dessas coisas. As guardávamos. Seguíamos em frente. Mas a pergunta permanecia, em algum lugar profundo, na sombra: se é isso que é um pai… então quem é Deus Pai?
E então chegou o dia da descoberta da Bíblia. Não uma argumentação. Não uma demonstração. Um encontro lento e gradual, que revelava um rosto que eu não conhecia.
No Evangelho de Lucas, o pai vê seu filho de longe e corre. Em um livro do Antigo Testamento (Oseias 11), é Deus quem ensina o filho a andar e o ergue até a sua face. Mas foi esta frase do apóstolo Paulo que me deteve completamente:
«Por essa razão, ajoelho diante do Pai, de quem recebe nome toda família nos céus e na terra.»
Efésios 3:14-15 (NVI)
Toda família recebe seu nome d'Ele. E não o contrário.
O que eu havia visto e recebido não era a definição correta de "pai". Era uma versão quebrada e desfigurada — algo como uma fotografia borrada ou desfocada. O original estava em outro lugar; sempre esteve em outro lugar.
Tive três filhas, depois quatro netos. E aprendi — verdadeiramente aprendi — a ser pai, a ser avô. Não a partir do que havia recebido. Mas do que havia descoberto na Palavra, e recebido d'Ele. Algo se deteve, como uma corrente rompida, e outra coisa começou.
Muitos de nós carregamos uma imagem danificada do pai. Talvez você também tenha crescido em uma casa onde o medo reinava. Onde os golpes caíam. Onde o silêncio depois da violência era ainda mais pesado do que a própria violência. Talvez seu pai tenha estado ausente — fisicamente, ou presente mas inacessível, fechado, frio. Talvez tenha lhe dito palavras que nunca deveriam ser ditas a uma criança. Talvez tenha feito coisas que nunca deveriam ser feitas.
E talvez desde esse dia você olhe para Deus Pai com desconfiança. Com uma distância que não consegue explicar. Com uma resistência interior que às vezes chama de dúvida, mas que talvez seja outra coisa — uma ferida antiga, nunca nomeada.
Você não está sozinho. E não é vergonha.
Meu pai tomava. Deus dá.
Essa é talvez a diferença mais simples — e a mais imensa.
«Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.»
João 3:16 (NVI)
Um pai violento toma — toma o seu medo, despeja sobre você uma tempestade de raiva, toma a sua liberdade e corrói a sua juventude, derrama toneladas de crueldade sobre alguém mais fraco do que ele.
Deus dá. Dá o que tem de mais precioso. Não é a mesma direção. Não é o mesmo amor. Nem sequer é o mesmo mundo.
No final de todos os meandros da Escritura, há uma cruz. E sobre essa cruz não é Deus quem golpeia — é Deus quem absorve. Não é Deus quem toma — é Deus quem dá. Até o fim. Até você, que lê estas linhas.
É aí que o rosto do Pai fica definitivamente revelado.
Como se aproximar de um Pai que nunca se conheceu
Mas como se aproximar de um Pai que você nunca conheceu de verdade? Como atravessar a desconfiança, a distância, essa resistência interior que se instalou tão cedo?
É aí que entra Jesus. Ele não veio apenas para nos falar do Pai — veio para nos conduzir até Ele.
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.»
João 14:6 (NVI)
Observe Jesus orando. Em João 17, na noite de sua prisão, ele levanta os olhos ao céu e diz: «Pai, chegou a hora…» — chama-o de Pai a cada respiração, com absoluta confiança, ternura e familiaridade. Em Getsêmani, na angústia mais profunda, diz ainda: «Aba, Pai…» — essa palavra aramaica, a palavra de uma criança muito pequena para o seu papai.
E esse mesmo Jesus, quando seus discípulos lhe perguntam como orar, lhes diz: «Portanto, vocês devem orar assim: Pai nosso…» Os introduz em sua própria relação com o Pai. Nos introduz a nós.
«Quem me viu, viu o Pai.»
João 14:9 (NVI)
Se você quer saber quem é realmente o Pai, não comece pelo que te atemoriza. Comece por Jesus, que toca o leproso. Que levanta a mulher surpreendida em adultério. Que chora diante do túmulo de Lázaro. Que acolhe as crianças em seu colo. Que perdoa da cruz.
Esse é o rosto que revela o Pai. Esse é o amor que é o original.
A imagem do pai que você carrega pode ter causado um grande dano. Mas não te define. E não define a Deus.
Ele é maior do que o que você recebeu. Mais suave. Mais próximo. É o que o coração da sua infância buscava sem encontrar. Ele te espera, não com o rosto que você teme, mas com o que talvez nunca tenha conhecido — e que no entanto merece encontrar.
A imagem está danificada. Mas pode ser restaurada. É exatamente para isso que o Filho veio.
«Por essa razão, ajoelho diante do Pai, de quem recebe nome toda família nos céus e na terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, ele fortaleça vocês com poder por meio do seu Espírito no homem interior.»
Efésios 3:14-16 (NVI)