Lido por uma voz IA
Há, na memória de quase todos, um quadro-negro.
O professor está de pé diante dele, uma longa régua de madeira na mão. Três colunas traçadas a giz: o passado, o presente, o futuro. A régua bate na primeira, e a classe recita a uma só voz: eu era, tu eras, ele era… Depois a segunda: eu sou, tu és, ele é… Depois a terceira: eu serei, tu serás, ele será…
Ontem à noite, era o meu neto, debruçado sobre o caderno, que tropeçava nesse mesmo verbo, ser. E de repente, por cima do seu ombro, voltei a ver o meu próprio quadro-negro, o meu próprio professor, a mesma régua a bater nas mesmas três colunas. Tinha passado meio século. O verbo, porém, não tinha mudado uma única letra.
Pois esse verbo não se recita apenas na escola. Conjugamo-lo a vida inteira.
A primeira coluna, o passado, é a coluna do que já não é. Eu era jovem. Eu era forte. O meu pai estava aqui. Quanto mais os anos passam, mais essa coluna se alonga. Na minha idade, tornou-se a mais longa das três: a coluna das fotografias amareladas e das cadeiras que ficaram vazias.
A terceira, o futuro, é a coluna do meu neto. Transborda de promessas: serei grande, serei bombeiro, serei… Luminosa, e no entanto tão frágil, pois ninguém tem o seu futuro na mão. Não é uma posse; é uma esperança em suspenso.
Resta a coluna do meio. O presente. Eu sou. Pensaríamos que é nossa, pois é aí que vivemos. Mas olha de perto: o nosso presente nunca fica parado. Mal é pronunciado, já desliza para o passado. O «eu sou» de hoje será o «eu era» de amanhã. Habitamos um presente que nos escorre por entre os dedos.
E depois há Alguém, em todo o universo, que conjuga este verbo numa só coluna.
Um dia, no deserto, um homem perguntou a Deus o seu nome. E Deus, em vez de um nome, deu um verbo: «Eu sou o que sou.» Não eu era. Não eu serei. O próprio Nome de Deus é um verbo plantado na coluna do meio. Nunca diz «eu era» — não perde nada. Nunca diz «eu serei» — não espera nada. Ele é, simplesmente, e para sempre.
Quando o Filho veio, manteve a gramática intacta. Sete vezes, no Evangelho de João, pousou a mão sobre as coisas comuns da vida: eu sou o pão, eu sou a luz, eu sou o caminho… Sempre no presente. Nunca «eu era o pão.» Pois ele não é uma lembrança que se revive, mas uma presença que se encontra. E a ninguém se encontra no passado.
Um dia, reprovam-lhe a idade. Responde com uma frase que deveria parar-nos o coração: «Antes que Abraão existisse, eu sou.» Não diz «eu era antes de Abraão» — só isso já seria vertiginoso. Diz: eu sou. Abraão pertence à primeira coluna, arrastado pelo tempo. Ele permanece na segunda, imóvel, presente para cada geração de crianças que recitam diante do quadro-negro.
É isto que eu gostaria de sussurrar ao meu neto, para o dia em que for grande, quando a sua própria coluna do passado começar a alongar-se. Tudo o que puderes dizer de ti acabará por cair no passado: eu era pequeno, o avô estava aqui. Mas há um «eu sou» que nunca se tornará um «eu era». Uma presença que não passa.
Fez até o inaudito com a morte. A única vez que se permitiu um passado foi para declarar: «Estive morto, e eis que estou vivo pelos séculos dos séculos.» Até a morte a empurrou para a primeira coluna — atrás de si — para guardar diante de si apenas um presente que nunca termina.
Assim, quando todo o resto tiver deslizado para o passado, restará Aquele a quem poderemos sempre falar no presente. Mesmo à beira de um túmulo. Mesmo de mãos vazias. Para lhe dizer, simplesmente, esta palavra que o tempo nunca lhe tirará:
Tu és.
«Antes que Abraão existisse, eu sou.»
João 8:58