Lido por uma voz IA
Colocaram-me o meu sexto stent — aquela pequena mola de metal que se desliza numa artéria do coração para mantê-la aberta quando ela quer voltar a fechar-se.
Antes da sala de cirurgia, há o corredor. O pronto-socorro. Fiquei ali deitado por um longo tempo, e fiz o que se faz quando não se pode fazer mais nada: olhei.
Ao meu redor, o sofrimento era ruidoso. Fraturas. Curativos. Os feridos da vida — os da estrada e os da existência, nem sempre se sabe distinguir. Gritos, ao fundo do corredor. Um gemido que aperta o estômago.
E eu não dizia nada.
Nada se via. Nem gesso, nem sangue, nem um grito. Um homem calmo numa maca. Se você tivesse passado diante de mim naquele dia, não teria notado absolutamente nada.
No entanto, meu coração sofria. E havia, ao lado da minha cabeça, uma máquina que o dizia por mim. Um bipe. Na tela, um traçado que subia e descia, escrevendo sem cessar o que minha boca calava.
O teto
Ao fim de um tempo, desviei o olhar. Fixei o teto.
É um gesto que conhecem todos os que esperaram numa maca. Já não se olha para nada. Já não se quer ver o sofrimento dos outros, nem o próprio. A gente se retira para cima, para aquela superfície branca e vazia que nada pede.
O teto é o limite do mundo quando se está deitado.
Um rosto
E então um rosto entrou no meu campo de visão.
Uma enfermeira, inclinada sobre mim. Perguntas — as que se fazem, as perguntas do ofício. Respondi.
Depois ela ajeitou o lençol que me cobria. Um gesto de nada. O gesto que ela deve ter feito cem vezes naquele dia. E ao fazê-lo, sem pensar, sem saber que alguém escutava — ela cantarolou, por trás da máscara, a melodia de um hino.
Um hino que conheço bem.
Não sei por que, em sua graça…
Não sei
Naquela maca, eu não sabia nada.
Não sabia por que o meu coração, de novo. Por que um sexto. Não sabia o que iriam encontrar, nem quanto tempo me resta, nem o que faria com esse tempo. Não sabia o que orar. Havia desviado os olhos para um teto branco, precisamente porque não sabia onde pousá-los.
E eis que uma desconhecida, ao ajeitar um lençol, cantarolava exatamente isso: não sei por que.
O hino não resolve nada. Não explica a graça, não promete a cura. Começa por confessar a ignorância — não sei por que, em sua graça, Jesus me amou tanto — e não para por aí. Você conhece o refrão tão bem quanto eu:
«Mas sei que nele tenho a vida.»
Hino — «Não sei por que, em sua graça»
Foi isso que desceu sobre mim naquele dia. Não uma explicação. A vida. A própria palavra que, ao lado da minha cabeça, traçava a máquina que velava pelo meu coração. Não é o porquê que mantém de pé um homem deitado numa maca — é Aquele em quem ele tem a vida.
E o corpo seguiu. A paz. A paciência. Um bem-estar que não tinha razão alguma para estar ali, naquele lugar, naquele dia.
Até o eletrocardiograma cantou.
Sua voz
«Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações.»
Hebreus 3:7-8
Passei anos refletindo sobre este versículo. Julgava saber como soava a sua voz. Uma convicção interior. Uma passagem bíblica que nos agarra. Uma palavra recebida na oração.
Naquele dia, a sua voz era uma enfermeira que cantarolava sob a máscara enquanto ajeitava um lençol. Uma voz escondida por trás de uma máscara, e que no entanto se fez ouvir.
Ela não pregava. Não sabia. Nunca me anunciou nada, e até hoje ignora o que fez. Fazia o seu trabalho, cantarolava como se cantarola, e Deus passou pela sua boca sem lhe pedir licença.
É isto que eu guardo, e o deposito com suavidade: Deus não fala primeiro dos púlpitos. Fala a partir das mãos que ajeitam um lençol. Esperamos a sua voz pelos canais previstos. Ela chega por um cantarolar.
Para hoje
Talvez você não saiba. Por que esta provação, por que agora, por que ainda. Não procure a bela oração, nem a boa explicação. Talvez não haja. Mas entre o porquê que lhe escapa e Aquele que o sustenta, há todo o espaço para viver.
Mantenha um ouvido aberto. A sua voz chegará talvez hoje, por um lugar que você não havia previsto, por alguém que não se sabe enviado. Não endureça nada. Não desvie a cabeça.
E cantarole. É o conselho mais estranho que já dei, e o mantenho. Você nunca saberá quem está deitado ao seu lado, nem o que ele escuta. Faça o seu trabalho, ajeite o lençol, e cante sem pensar.
Alguém, em algum lugar, reconhecerá a melodia.